Publico, logo filtro - ou Filtro, logo publico?

Publicado por Andre Deak em August 15th, 2008

Trecho de uma entrevista bastante pertinente de Daniela Bertocchi (Intermezzo), publicada no blog O Jornalismo Morreu. Republico aqui, porque acho que pode ser bastante importante para as discussões do Publico.org:

O “jornalismo participativo” (colaborativo) ocorre quando um cidadão, ou grupo de cidadãos, assume uma função ativa no processo de recolha, reportagem, análise e divulgação de notícias e informações. O objetivo desta participação é fornecer aquilo que um sistema democrático exige: informação independente, confiável, acurada e variada.

O “jornalismo cívico”, por outro lado, procura encorajar a participação, mas as organizações noticiosas mantêm um elevado nível de controle através da determinação da agenda temática, da seleção dos participantes e da moderação das conversas.

Resumida e simplificadamente (e peço também desculpas pelo tom professoral), a distinção é essa: o colaborativo pressupõe uma interferência mínima ou nula por parte de jornalistas no conteúdo gerado pelos usuários; no cívico, ao contrário, é suposto um controle desta interação através da edição, da filtragem de informações e da moderação da participação dos usuários.

A partir do que eu digo acima, é completamente natural não encontrarmos a prática do jornalismo colaborativo nos grandes portais brasileiros, uma vez que sabemos que estes são projetos de tradição jornalística que claramente defendem o jornalista profissional como aquele capaz de editar, filtrar, checar etc. as informações com mais propriedade e melhor rigor do que qualquer um outro profissional ou cidadão.

Assim, o leitor não é percebido como jornalista profissional. Torna-se um colaborador importante, mas não essencial para o funcionamento da máquina jornalística.

É por isso que o UOL errou ao publicar uma foto de leitor sem antes passar um olhar atento sobre a imagem. E acertou em assumir o erro. Este processo revelou exatamente como as coisas são entendidas pelos portais: deve ser exercido o controle do jornalista através da edição, da filtragem de informações e da moderação da participação dos usuários. Fundamental é mesmo o corpo de jornalistas presentes da redação, profissionais com habilidades e competências para desempenhar as suas funções com qualidade. Ou seja, não existe jornalismo colaborativo nos portais brasileiros.

Se existisse, não haveria a lógica do “erro”. Em vez do “filtro, logo publico”, ficaríamos com o “publico, logo filtro” e tudo bem (processo de construção conjunto entre comunidades). Aí reside a diferença fundamental.

Se a questão for entendida por uma perspectiva do controle, a intervenção dos usuários na produção noticiosa é realmente uma batata quente nas mãos dos media online. A beleza e o encanto democrático do jornalismo participativo parecem se apagar precisamente quando o assunto esbarra na questão da autonomia profissional (e da autoria). Até que ponto as empresas de comunicação e os jornalistas querem perder o controle e, portanto, o poder do discurso noticioso, e até que ponto podem resistir a um fenômeno emergente de participação, figura-se como uma encruzilhada que não se resolveu ao longo dos últimos anos.

Ocorre que o discurso em torno do jornalismo colaborativo está em voga. Existe todo um discurso pró-participação do usuário a ser repercutido por especialistas dos media, estudiosos do jornalismo e simpatizantes do assunto. E então os portais entram nesta onda. E pedem a colaboração de seus leitores. Sem entender o que isso significa. E depois não sabem o que fazer com essa colaboração.

Do leitor online, esperamos uma cooperação em três níveis: 1) interpretativa (isso ocorre com qualquer tipo de leitor, seja de romance ou telenovela), 2) exploratória (clicar no mouse, navegar) e 3) intervencionista (interferir, participar, colaborador, ser co-autor).

Relativamente ao item 3, que mais importa aqui nesta discussão, sabemos que no ciberespaço jornalista e leitor poderiam trabalhar juntos para o bem comunicar uma história.

Perguntas delicadas: O jornalista precisa/quer abrir mão de suas estratégias autorais no ciberespaço? Se sim, como dividir entre autor e leitor, na prática, a responsabilidade do “bem narrar” uma notícia? Quando ambos querem narrar uma mesma história, num mesmo espaço, ou então quando o leitor, já na posição de autor, quer interferir na estratégia do autor, agora na posição de leitor? Se a retórica é toda ela uma negociação da distância entre sujeitos, como efetuar a aproximação?

O que sustento é que no ciberjornalismo existe, na verdade, uma “liberdade simulada” do leitor, e não propriamente uma “liberdade real”.

O jornalista do cibermeio - lembremos que estamos aqui a falar dos portais jornalísticos - continua a ter controle retórico da narrativa, e ao leitor é conferida a possibilidade de escolher caminhos para completar a sua leitura da narrativa (coisa que a literatura já faz há muito tempo) e, eventualmente, dada a ele a chance de participar de alguma forma (submeter sugestões, informações etc.), mas mais raro será permiti-lo intervir em nível estruturalmente profundo da narrativa. Quando isso acontece (participação), é sob o olhar atento de jornalistas.

Não posso deixar de citar alguma coisa sobre o perfil do jornalista que trabalha com a web porque isso também tem ligações com a minha prática docente. Respondendo diretamente: a) não, o webjornalista (ou ciberjornalista, como prefiro) não está preparado para absorver e lidar com a web 2.0; b) os estudos acadêmicos são pouco considerados nas redações on-line; c) sim, naturalmente que é cabível investir em uma discussão – seja na academia, seja no campo profissional – a respeito da deontologia do webjornalista.

Quando você pergunta o que falta para os produtores de conteúdo realmente lidarem com o Jornalismo Colaborativo? então a resposta está ai: transformar radicalmente o entendimento do que seja fazer jornalismo.

E entender que ele pode ser feito de várias formas não-excludentes, com e sem colaboração de cidadãos. Desta forma, uma palavra que não serve aqui é “dicotomia” e outra que vem bem a calhar é “co-existência”. Particularmente, penso que o jornalismo precisa de profissionais que se dediquem à prática de informar em tempo integral e não somente de cidadãos-repórter nas horas livres.

Penso que o jornalismo homogêneo e único (e unissonante) está morrendo. E começam a nascer jornalismos, no plural, heterogêneos e mais coloridos.

    Blogs
    Feeds dos autores desse projeto:
    • ENTREVISTA: JAMIE KING, STEAL THIS FILM E VODO.NET Andre Deak - Jornalismo Multimídia, March 9th, 2010
      O idealizador do documentário “Steal this Film” (”Roube este Filme”, em português) e criador da rede Vodo.net, Jamie King, defende a liberdade de compartilhamento livre na rede e ajuda produ. […]
    • Essa tal linha de pesquisa…Socorro!!! , March 5th, 2010
      Tem sido muito engraçado lidar com as minhas “certezas” que, em questão de dias, vão embora sem dizer adeus.  Quem sabe elas voltam e tenham algum sentido amanhã. Eu falo da busca pela Linh. […]
    • será o fim? NA RUA, October 28th, 2009
      “Uma fábrica é uma máquina de produzir lixo. Todo produto que compramos já nasce lixo. A lógica em que vivemos é linear, não prevê o retorno do que consumimos à natureza. Estamos criando so. […]
    • O fim deste blog , August 24th, 2009
      Car@s, Este blog chega ao fim. Muitos já haviam percebido a falta de atualização. Várias coisas mudaram, e a partir de agora vocês me encontram em outros lugares, como no www.trezentos.blog.br e. […]
    • De mudança E você com isso?, April 7th, 2009
      Este blog está indo para o portal da MTV, no seguinte endereço:http://mtv.uol.com.br/evocecomisso/blog/Eu ainda estou adaptando o blog de lá - e, pra complicar, hoje me ferrei com o acesso à inter. […]